quarta-feira, julho 06, 2005

A Minha Avó «Zeca»


Hoje apetece-me falar de saudade. Não aquela saudade que se sente quando nos separamos temporariamente de alguém, mas aquela saudade que leva consigo um pedacinho do nosso coração.

Apetece-me hoje, não por ser uma data especial mas porque todas as datas são especiais para falarmos daqueles que amamos muito. Das pessoas que transportam consigo o amor na sua forma mais pura, das pessoas que vêm a este mundo só com um intuito: o de fazer os outros felizes.

Era assim a minha avó. Mãe da minha mãe, minha mãe duas vezes ...

E eu, que ainda sou do tempo em que a imagem de todas as avós cabia naqueles padrões que não abundam hoje em dia, recordo a minha avó com saudade ao deparar-me com estas avós modernaças, cheinhas de madeixas e com um visual de fazer inveja a muita trintona como eu !!!!

A minha avó «Zeca» (como eu babosamente lhe chamava) tinha o cabelinho branco e encaracolado, que moldava um rosto que para mim era um dos mais belos do mundo, um rosto marcado pela passagem do tempo, que lhe fez nascer umas rugas que faziam daquela cara uma daquelas em que mais me apetecia depositar toneladas de beijos.

Lembro-me de lhe dizer que ela tinha «sobrancelhas de peluche», de tão macias que eram e do deslizar dos meus dedos ao longo daquela penugem de algodão. O sorriso era franco e fazia-se contornar por uns lábios finos. Os olhos eram castanhos, um castanho escuro que se tornava único e ainda mais bonito por colorir os olhos dela.

Desde que me lembro de mim que me recordo dela, com as suas mãos fortes e seguras mas que se tornavam delicadas e suaves quando me tocavam. Lembro-me das corridas que dávamos à volta de uma mesa redonda e de me rir à gargalhada só com aquela brincadeira. E de adormecer ao seu lado. Lembro-me de lhe pedir para me fazer cola com farinha porque a cola da papelaria tinha acabado e eu queria (porque queria) acabar de colar os meus cromos. Lembro-me do carinho com que ela acolheu um cão de caça que eu encontrei abandonado junto à praia (a quem pusemos o nome de «Vigia» porque ele estava sempre com um ar de quem procurava alguma coisa). Lembro-me dos seus braços que me enroscavam em abraços de conforto e de riso. Lembro-me de a ver a fazer crochet e tricot e lembro-me das almofadas lindas que fazia (recordo em particular uma que ela fez em forma de girassol). Lembro-me do tom da sua voz e dos aventais que usava quando cozinhava. Lembro-me de que o único dia em que ela não dispensava um dia inteiro de televisão era o dia do Natal dos Hospitais. Lembro-me de gostar de lanchar junto a ela, as duas sentadas nos degraus que davam para a cozinha. E de lhe dizer que ela era a avó mais bonita do mundo.

E era, de facto, a avó mais bonita do mundo.

O tempo passou, e nós passámos por ele, separadas pelo tecto, mas juntas pelos afectos e pela vida fora, com a cumplicidade que só um grande amor consegue.

O tempo passou ... e num dos primeiros dias do terceiro mês do ano de 1988, eu despedi-me dela, como fazia sempre que estávamos juntas, com um abraço forte e um beijo repenicado. Um beijo que nada teve de diferente de todos aqueles que eu sempre lhe dera. A não ser o facto de ter sido o último.

E porque todos os dias me lembro dela, quis hoje lembrar-me dela convosco.

Caracol Saudoso

14 comentários:

Anónimo disse...

O meu amanhecer, aqui, acordou emocionado. Num determinado momento, as tuas palavras começaram a ficar molhadas. Com uma água que nasce salgada e se torna doce com a ternura que nos envolve ao te ler, assim.
Que bonita deve ser a tua avó.
Um beijo da "tua" anónima.

Mocho Falante disse...

Olha amiga, comecei o dia com choro saudade depois de ler este lindo tributo que acabaste de colocar aqui.

Olha amiga, o problema é que foi no trabalho e agora tenho toda a gente a perguntar o que se passou e não me apetece partilhar o que li com mais ninguém...

Olha amiga gosto muito de ti

Ass: Mocho Mariconço

Isabel Magalhães disse...

Querida Caracolinha,

Uma ternura de post... um elogio a alguém muito especial... poesia em prosa. Fiquei comovida.

Um beijinho do coração.

Abelhinha disse...

Olá minha querida Caracolinha!

A tua avó poderia ser a minha!

Também lhe dei o meu último beijo nos primeiros dias do terceiro mês, mas de 2005. Dei-lhe esse último beijo sabendo que seria o último. Disse-lhe que a amava muito e que a ia lembrar sempre! Cancelei o que tinha para o dia seguinte e dormi esperando o seu alívio.

No dia seguinte acordei, cumpri a única obrigação que não consegui evitar, e soube que o fim do sofrimento causado pela sua doença tinha chegado.

Não chorei! Achei que tinha sido melhor assim, que aquela mulher tinha mantido a sua dignidade até ao seu último suspiro. Não chorei por ela. Choro por mim, da saudade que dela sinto...

Beijos com lágrimas de mel, minha querida desconhecida mas que já guardo com carinho no meu coração.

Bastet disse...

Um beijo caracolinha. Tive uma fantástica avó Aida da qual me despedi em 1992 e outra que pouco conheci, de seu nome Quintina, que era pintora e que dizem tinha uma clara preferência por mim pela similitude de (mau) feitio :). Um dia farei a história fantástica das mulheres da minha família todas elas com uma característica comum: avançadas para a sua época.

Leonoretta disse...

adorei caracolinha.
quando a minha avó morreu eu perdi-me. e durante muito tempo fiquei institivamente à deriva. ainda não passou...

beijinho da leonor

LUA DE LOBOS disse...

que bom se eu tivesse tido alguém assim mas fui sempre guardada sete chaves por uns pais que conviver para além deles, era impensável::(
fiquei salgad de lágrimas teimosas.
MUITO OBRIGADA por partilhares a tua saudade
xi
maria

guevara disse...

:`(

E com a música dos Mecano...

Vespinha disse...

E fez-me lembrar o Avô Fontes.

Fez-me lembrar quando me dizia que iamos fugir e comprava dois bilhetes para o Rossio e saquinhos de milho para os pombos.Tinhamos ataques de riso como dois miúdos,lanchavamos refrigerantes e amendois.
Iamos ao cinema e quando queria ir à casa de banho fazia-o entrar no WC das senhoras e enquanto fazia o pipi ficava de mão esticada para a porta a pegar na mãozinha dele porque não o queria perder de vista.Que paciência a dele!

O Avô Fontes era enfermeiro.Só ele deixava que me desse as picas e tirasse os dentes de leite.
O Avô Fontes era enfermeiro.E o único da zona.
Não levava dinheiro aos indigentes e tratava-os com um carinho e um amor que só um homem bom sabe.

O Avô Fontes tinha um irmão fisícamente quase igual a ele.Mas só fisícamente...e depois do Avô Fontes me deixar,dava por mim lá na terra a espreitar o Tio Vitorino por entre sebes e muros mas quando ele olhava para mim e se me dirigia,não era o Avô Fontes.

O Avô Fontes são os principios e a força que trago comigo.E o meu dedo indicador que é igual ao dele.
O Avô Fontes era (é)o homem da minha vida...

A Vespinha neta do Avô Fontes

SaltaPocinhas disse...

A tua avó continua viva n atua memória e dedicas-te-lhe um belo texto.
A minha avó ainda é viva e é a velhinha mais bonita que eu conheço. pena que não convivo tanto com ela como gostaria...

Pitucha disse...

Caracolinha
Vim ver! E tenho que admitir que só não chorei porque estou no trabalho! Mas tá difícil...outro assim e passo a chamar-me Maria Madalena!
Adorei e quando for grande e souber pôr links para os meus blogues favoritos, numa coluna lá no Cinzento, lá estarás.
Obrigado por linkares o meu.
Beijos

Anónimo disse...

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