Em primeiro lugar queria pedir-vos desculpa pelo tamanho descomunal deste post ... mas teve que ser porque é mesmo assim ... uma ideia leva a outra ...
Uma grande amiga (Olá FOCA !!!!) enviou-me hoje, por mail, este magnífico texto que reproduzo mais abaixo, a castanho. A ideia nele contida fez-me lembrar um dos livros mais espectaculares que já li ... O Triunfo dos Porcos de George Orwell ...

O Triunfo dos Porcos é um livro cheio de simbolismo, uma sátira à Revolução Russa ... a história passa-se numa quinta algures em Inglaterra, e tudo começa quando o porco mais velho que lá habitava (o velho Major) convoca todos os restantes animais para uma reunião secreta e lhes fala do sonho de uma revolução contra o dono da quinta, o Sr Jones. Contudo, alguns dias depois, o porco Major morre ... mas a semente da ideia contida no seu discurso dá, a outros dois porcos, Napoleon e Snowball (mais inteligentes e com ideias diferentes) ... uma nova visão de vida...
Este é o mote para o início de uma fantástica história que aconselho vivamente, a quem ainda não leu.
Fica aqui então o texto que me enviou a minha amiga, para vos abrir o apetite para o livro ... no livro mudam as personagens principais da história ... na história enviada pela minha amiga são ratos, no livro são porcos... mas a mensagem é muito similar e dá muito que pensar ....

O Sonho Dos Ratos (Rubens Alves, 07/12/2004)
Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do soalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, do campo e da cidade.
Mas ninguém ligava às diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes.
Comer o queijo seria a suprema felicidade...
Bem pertinho é modo de dizer. Na verdade, o queijo estava imensamente longe, porque entre ele e os ratos estava um gato... O gato era malvado, tinha dentes afiados e nunca adormecia. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e ... era uma vez um ratinho...
Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum tornava-os cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro...
Como não podiam fazer nada, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem a quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos.
Diziam que chegaria o dia em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. «Quando se estabelecer a ditadura dos ratos», diziam... «então todos serão felizes...» - «O queijo é grande o bastante para todos», dizia um. - «Socializaremos o queijo», dizia outro. Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse!
Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre.
E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: «o queijo, já...»
Sem que ninguém pudesse explicar como, o facto é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha desaparecido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Tudo aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era. O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria.
Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu. Bastou a primeira dentada. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.
Assim, quanto maior o número de ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver a quantidade de queijo que haviam comido.
E os olhares enfureceram-se. Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Agora eles eram os seus próprios inimigos. A luta começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos à dentada. E, de seguida, começaram a lutar entre si. Alguns ameaçaram chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem.
O projecto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos: «Qualquer pedaço de queijo poderá ser tirado aos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que esse pedaço tenha sido abandonado pelo dono». Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar à espera...
Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que estava a acontecer. O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham parecenças impressionantes com o gato... o olhar malvado, os dentes à mostra...
Os ratos magros nem sequer conseguiam perceber a diferença entre o gato antigo e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato.
Não é por acaso que os nomes são tão parecidos...
Caracolinha Contadora de Histórias